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sábado, 8 de junho de 2013

DRAMA - PARTE 38

ROMEU + JULIETA
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O GRANDE GATSBY
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MOULIN ROUGE
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O GRANDE GATSBY
CRÍTICA: Bazz Luhrmann é provavelmente um dos diretores com a "marca estética" mais conhecida da atualidade. Romeu + Julieta e Moulin Rouge consagraram seu estilo cheio de barroquismos, paixões exacerbadas, edição acelerada e elaborada trilha sonora. O fracasso do mastodôntico (e tedioso) Austrália, porém, colocou em cheque o talento do diretor. E ele pareceu ter achado no livro O Grande Gatsby (de F. Scott Fitzgerald, autor do conto adaptado no filme O Curioso Caso de Benjamin Button) a matéria-prima ideal para colocar as coisas de novo no caminho certo.
A trama, passada em 1922, acompanha Nick Carraway (Tobey Maguire, de Homem Aranha), jovem que chega à Nova York cheio de sonhos e acaba tragado pelo mundo de festas, exageros e riqueza de seu vizinho de porta, o milionário J. Gatsby (Leonardo DiCaprio, de Foi Apenas Um Sonho). Gatsby é apaixonado pela prima de Nick, Daisy (Carey Mulligan, de Educação), e fará qualquer coisa para ter o seu amor.
A história parece feita sob medida para o estilo de Bazz Luhrmann, que se esbalda em sua característica sobreposição de referências estéticas. Quando precisa retratar as festas espalhafatosamente fantásticas promovidas por Gatsby, o diretor constrói momentos de visual antológico. O 3D, neste caso, cria uma sensação perfeita de imersão, fazendo com que o confete pareça voar em nossa direção. O figurino e a direção de arte também são muito bem explorados, tornando o filme absolutamente lindo e encantador de se acompanhar.
O filme até referencia a produção do próprio diretor, usando ideias como "o escritor que escreve a história" (de Moulin Rouge), com as palavras literalmente invadindo a tela na forma de grafismos.
O maior mérito da produção é, sem dúvida, seu elenco afinado. Nunca a cara de pastel de Maguire esteve tão perfeita, assim como a expressão apaixonada e sofrida de Mulligan. Os coadjuvantes Isla Fisher (Os Delírios de Consumo de Becky Bloom), Jason Clarke (A Hora Mais Escura),  a novata Elizabeth Debicki e Joel Edgerton (também de A Hora Mais Escura) tornam seus personagens sempre interessantes, mesmo que alguns tenham tão pouco tempo em cena.
Já DiCaprio nunca esteve tão bem, e seu Gatsby é carismático, excêntrico, perturbado, triste e apaixonado. Um belo trabalho de um ator que se torna melhor a cada filme.
Destaque também para a ótima trilha sonora, que oferece curiosidades como a versão de Beyoncé para a Back To Black de Amy Winehouse.
Mesmo com tanta coisa a seu favor, Luhrmann acaba pesando a mão no ritmo em alguns momentos, tornando o filme  muito longo (142 minutos). O epílogo é o principal exemplo disso, perdendo um pouco de força com a demora de sua conclusão.
Mesmo sem ser perfeito, o filme é envolvente, divertido, emocionante e surpreendente (pelo menos para para quem, como eu, não leu o livro). E é também a coisa mais linda que apareceu nos cinemas em 2013, merecendo ser conferido na telona.

sábado, 1 de junho de 2013

DRAMA - PARTE 37

O MENINO DA PORTEIRA
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ERA UMA VEZ NO OESTE
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SCARFACE
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FAROESTE CABOCLO 
CRÍTICA: Anunciado há anos, o projeto de transformar a música "Faroeste Caboclo" em filme sempre foi visto como impossível. A longa canção é uma das mais conhecidas do Legião Urbana e roteirizá-la mostrava-se um desafio e tanto. Um desafio que, felizmente, obteve um ótimo resultado.
O longa acompanha a trajetória de João de Santo Cristo (Fabrício Boliveira), sertanejo que se muda para Brasília em busca de um futuro melhor e acaba se tornando traficante. Sua paixão por Maria Lúcia (Isis Valverde) irá levá-lo a um conflito direto com Jeremias (Felipe Abib), outro traficante da área nobre da cidade.
A primeira coisa que precisamos levar em conta ao assistir ao filme é que estamos diante de uma ADAPTAÇÃO. Não espere literalidade em todos os meandros da narrativa (João nem passa por Salvador, por exemplo), bem como uma ordem cronológica exata dos acontecimentos. O roteiro evita transformar o protagonista em santo e humaniza o personagem.
Estas mudanças, aliás, que fazem com que a estreia do diretor René Sampaio transforme a "música" em "cinema". 
Buscando referências em Sérgio Leone (lendário diretor italiano de westerns como Era Uma Vez no Oeste) e até no Scarface de Brian de Palma, ele constrói uma interessante identidade visual para o filme que, auxiliada pela bela fotografia, cria uma Brasília pobre, feia e amoral. Um ambiente opressor onde parece não existir pureza alguma.
E é nesse espaço que estão imersos os protagonistas, interpretados com garra e talento por Boliveira (num misto assustador de doçura e raiva), Valverde (dramática na medida certa) e Abib (alucinado e perverso). Cercados por ótimos coadjuvantes como César Trancoso (Pablo), Antonio Calloni (o delegado que persegue João) e Marcos Paulo (em seu último papel como o pai de Maria Lúcia), o trio conduz a narrativa com firmeza e emoção.
Mesmo que saibamos como tudo termina, é emocionante acompanhar os personagens rumo à tragédia. O clímax, por sinal, é belíssimo.  
É inevitável comparar o filme com Somos Tão Jovens, a asséptica e com cara de "especial de fim da ano da Globo" produção que contou parte da vida de Renato Russo. Neste aqui existem tristezas, drogas, sexo e desesperança. E o amor. Aí dá pra entender quando o público começa a cantar "Faroeste Caboclo" junto aos créditos finais. Agora sim o Legião ganhou um filme digno. E olha que eu nem sou um grande fã...


domingo, 19 de maio de 2013

DRAMA - PARTE 36

O CLOSET
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NOTAS SOBRE UM ESCÂNDALO
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DÚVIDA
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A CAÇA

CRÍTICA: O diretor Thomas Vinterberg chamou a atenção do mundo como um dos criadores do Dogma 95 (movimento que contou também com o polêmico Lars Von Trier, de Melancolia e Dogville). Se o seu Festa de Família perturbou muita gente, com este A Caça ele volta a deixar o espectador completamente desconfortável.
A trama acompanha Lucas (Mads Mikkelsen, o vilão Le Chiffre de 007 - Cassino Royale e atual estrela da série Hannibal), homem divorciado que trabalha em um jardim de infância. Quando um mal entendido levanta suspeitas sobre um possível assédio dele para com uma garotinha (a espetacular Anna Wedderkopp), sua vida vira um inferno. A acusação transforma-se numa histeria coletiva e Lucas tem sua vida praticamente destruída.
Um dos pontos mais interessantes e perturbadores do roteiro é o fato de sabermos, sem a menor dúvida, que Lucas é inocente. O crescendo das acusações, fofocas e posterior demonização dele causam extrema agonia e tensão. Tentando manter a dignidade perante uma situação terrível, o personagem é tragado por uma espiral que se torna cada vez mais violenta, atingindo inclusive sua família.
Vintenberg tem muita paciência. A história desenrola-se com calma, possibilitando ao espectador a percepção e a crueldade do desenrolar dos olhares, suposições e julgamentos aos quais Lucas é condenado. A belíssima fotografia acentua essa opressão.
Mikkelsen tem uma atuação impressionante e comovente (ganhou a Palma de Ouro em Cannes), coadjuvado por um elenco de apoio excelente que transforma cada cena em um verdadeiro duelo.
A velha máxima de que "crianças não mentem" é colocada em cheque pelo roteiro de modo contundente, mostrando como os adultos forçam a crença na pureza dos infantes para se sentirem melhor consigo mesmos. E como essa necessidade de acreditar em algo "puro" pode servir de veículo para o ódio e a violência.
E ao final, a vida nunca mais será como era antes. Um dos melhores epílogos dos últimos tempos.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

DRAMA - PARTE 35

CRIANÇAS INVISÍVEIS
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O LABIRINTO DO FAUNO
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TWISTER
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INDOMÁVEL SONHADORA
CRÍTICA: O mundo e suas tragédias já foram diversas vezes retratados no cinema pelo ponto de vista de uma criança. Mais recentemente, O Labirinto do Fauno e O Menino do Pijama Listrado mostraram o horror da guerra através do olhar de crianças não entendiam direito o que acontecia ao seu redor. Indomável Sonhadora parte desta ideia para retratar a devastação ocorrida em 2005 após o furacão Katrina.
Na trama, a garotinha Hushpuppy (a pequena Quvenzhané Wallis, a mais jovem atriz a concorrer ao Oscar) vive em condições de extrema pobreza com seu pai alcoólatra, doente e instável (Dwight Henry) em New Orleans. Quando o Katrina chega e inunda a região onde vivem (que eles chama de "Banheira"), a luta pela sobrevivência vai levando-os a atitudes cada vez mais extremadas.
Acompanhar este personagens na odisséia para permanecer em seu lar (eles ficam a deriva com mais alguns conhecidos, recusando qualquer ajuda) causa um grande incômodo. E o olhar infantil de Hushpuppy não ameniza em nada a dureza e drama da situação.
O lúdico aparece em alguns momentos, quando as "bestas selvagens" invadem a tela em direção da protagonista. Uma bela metáfora para o amadurecimento da protagonista, gerando momentos que, apesar de poéticos, ainda são carregados de dureza e sofrimento.
A relação de Hushuppy com seu pai é a alma do filme. Preocupado em preparar a filha para enfrentar o mundo sozinha, ele dedica-lhe um amor rude e violento.
Tanto Wallis quanto Henry apresentam performances incríveis. A primeira encanta pela naturalidade e força que entrega a protagonista (um verdadeiro achado), enquanto o segundo incomoda e emociona no seu jeito grosseiro de amar.
A relação deles com os outros sobreviventes (um elenco composto apenas de moradores locais) e o mundo exterior gera momentos cômicos, tristes e emocionantes.
O estreante Benh Zeitlin (indicado ao Oscar de melhor diretor) conta a história em tom de fábula, tornando Indomável Sonhadora um filme que desperta sensações muito contrastantes. É difícil de ver pela sua crueza. mas encantador pela poesia que consegue tirar de lugares e situações que são, numa primeira olhada, muito feios. Do tipo que fazem você olhar para o outro lado. Nesse caso, vale a pena olhar com muita atenção.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

DRAMA - PARTE 34

AEROPORTO
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FARRAPO HUMANO
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O VOO
CRÍTICA: Após passar uma década trabalhando em animações de motion-capture como A Lenda de Beowulf e Os Fantasmas de Scrooge, o diretor Robert Zemeckis (Forrest Gump, De Volta para o Futuro, Náugrago) está de volta aos filmes de live-action. Este O Voo marca seu retorno.
Na trama, o comandante Whip Whitaker (Denzel Washington, de Dia de Treinamento) realiza uma aterrissagem inacreditável durante um acidente aéreo. Porém, a investigação posterior revela que ele estava bêbado e drogado durante o voo, colocando sua carreira em risco. Enquanto isso, ele se envolve com Nicole (Kelly Reilly, de Sherlock Holmes), uma víciada em heroína que também está prestes a perder tudo.
É curioso notar que O Voo retoma a mesma temática redentora de Naúfrago, último filme live-action de Zemeckis. Porém, infelizmente, a jornada de Whip é bem menos interessante que as aventuras de Tom Hanks e sua bola de volêi Wilson.
O filme começa de maneira espetacular, apresentando um acidente aéreo impressionante e fazendo o espectador roer as unhas. Zemeckis ainda domina os efeitos especiais como ninguém, manipulando-os para levar a tensão até o limite.
Após a aterrissagem, porém, a coisa vai aos poucos desandando. Embora seja interessante quando se foca na investigação do acidente, com ótimas cenas envolvendo Don Cheadle (Hotel Ruanda) e Brian Geraghty (Guerra ao Terror) o filme perde ritmo quando volta para o alcoolismo e as paranóias do protagonista. Temos várias sequências mostrando o personagem"bebendo-se arrependendo-parando-voltando a beber", e mesmo o paralelo estabelecido com a personagem Nicole não chega a empolgar.
Somente no último ato o filme recupera o fôlego, quando traz de volta o ótimo personagem interpretado pelo espetacular John Goodman (Argo) e apresenta o julgamento de Whip.
Chegando muito perto de se tornar moralista, a conclusão do filme é satisfatória e ainda conta com uma bela participação de Melissa Leo (do ótimo e pouco visto Rio Congelado).
Nesse meio tempo, porém, o interesse já se esvaiu. E de quem é a culpa, se o protagonista está ótimo e a história é muito interessante? Na minha opinião, a culpa é da duração do filme (o que envolve seu roteiro, óbvio).
Já falei isso antes aqui no blog, mas por que todo filme hoje em dia precisa durar duas horas e meia? Saudade do tempo em que roteiros eram mais concisos e a duração de três horas era reservada somente aos grandes épicos, e não a algum episódio de Piratas do Caribe.



sábado, 26 de janeiro de 2013

DRAMA - PARTE 33

O ASSASSINATO DO PRESIDENTE
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... E O VENTO LEVOU
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LINCOLN
Crítica de Malcon Bauer: O presidente americano Abraham Lincoln é um dos homens mais admirados da história dos EUA. Grande articulador político, governou durante a famosa Guerra da Secessão e lutou para aprovar a 13a emenda, que daria um fim à escravidão no país e um fim na própria guerra. Diversos filmes já mostraram esta história. Mas nunca com a força deste aqui.
A trama se passa nos últimos meses da guerra, e o presidente Lincoln corre contra o tempo para aprovar a tal emenda antes que a paz chegue por outros meios. É um dilema e tanto: acabar com uma guerra de anos imediatamente ou estendê-la um pouco mais para, através dela, colocar um fim na escravidão (que ele abomina).
Desde que o filme foi anunciado todos aguardavam ansiosos pela performance de Daniel Day-Lewis (Sangue Negro) no papel-título. E a espera valeu a pena. Day-Lewis está impressionante numa composição física perfeita, um homem digno que leva em suas costas os quatro anos de um conflito que parece ter-lhe exaurido pelo menos uma década. Um homem envolvido num perigoso dilema que mudará toda a história. Mais uma vez, o ator entrega um trabalho magnífico.
Existem também outros dois grandes destaques do elenco.
O primeiro é Tommy Lee Jones (Um Divã Para Dois), arrasador como o abolicionista Thadeus Setevens.
O segundo é Sally Field (Norma Rae). No papel de Molly, a esposa do presidente, ela entrega uma performance emocionante e amargurada, levando-nos para a intimidade do personagem principal. O contraste do homem público e íntimo gera lindos momentos. Pelo menos uma cena entre os dois me deixou arrepiado.
O núcleo familiar também serve para desconstruir ainda mais a mítica de "homem sem defeitos" de Lincoln, mostrando sua tortuosa relação com o filho mais velho (interpretado por Joseph Gordon-Levitt, de Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge).
O diretor Steven Spielberg mostra-se inesperadamente contido (principalmente após o aviltante e melodramático Cavalo de Guerra) na condução do espetáculo.
Algumas cenas alcançam extrema beleza plástica e até a trilha sonora do habitual colaborador John Williams está menos invasiva.  A cena do resultado da votação da emenda é um exemplo belíssimo disso, lembrando aquela velha máxima de que "menos é mais".
Claro que todo o blá-blá-blá político do primeiro terço do filme pode incomodar. Afinal, fala-se muito de personagens e situações que nós não conhecemos. Mas passado este momento, Lincoln se mostra um filme inteligente, sensível e delicadamente dirigido, capaz de emocionar e até gerar algum suspense (o que é um trunfo e tanto, já que todos sabem o resultado da votação da emenda).
É, sem dúvidas, um belo filme.

Crítica por Vicente Concílio: Steven Spielberg não é um novato em abordar a escravidão em seus filmes. As heranças de um passado escravocrata permeiam toda a narrativa de A Cor Púrpura (1985), por exemplo. E em Amistad (1997), retrata-se um caso verídico no qual a Suprema Corte  decide se um grupo de negros que aportaram na costa americana devem ser considerados cidadãos livres ou escravos fugitivos. Neste filme, há uma cena na qual Anthony Hopkins, interpretando o presidente John Adams, realiza um discurso eloquente e contaminado por referências a "valores humanos" e "liberdade", que caem no vazio pela beleza de sua retórica e pela inverossímil possibilidade de que tais palavras, e apenas elas, tocariam os corações do júri. O resultado é uma cena irritante e melosa na qual deve-se crer que, com a força da música incessante, os brios de escravocratas foram tocados e nascia ali a rota para a abolição.
Um abismo separa esse Spileberg do homem que dirigiu Lincoln. Abrindo mão de apelos fáceis à emoção e preocupado em destrinchar os meandros políticos de uma delicada mas crucial questão, o roteiro de Tony Kushner é uma obra poderosa, que se concentra na força das palavras e elabora recortes inteligentes, transitando entre universos íntimos e públicos e nos oferecendo uma visão ampla do contexto e das principais tensões que rodeavam o mundo do protagonista.
O homem público e homem de família estão devidamente retratados: Lincoln nos é mostrado como um estrategista audacioso e consciente das medidas arriscadas (e nem sempre heróicas) que tomava, ao mesmo tempo em que cuidava de seus filhos e lidava com um casamento de poucas alegrias.
Palavras não podem descrever o que é o trabalho de Daniel Day-Lewis nesse filme. É arrepiante na sua concisão, assombroso no magnetismo e nas possibilidades que ele constrói fisicamente e vocalmente, sem nunca deixar de surpreender. A maneira com que seu corpo vai exibindo o cansaço e a degradação de quem suporta os cadáveres da guerra nas costas é de uma beleza tocante.
Mas o filme é mais que seu protagonista. Tommy Lee Jones está soberbo, assim como David Strathairn. Joseph Gordon-Lewitt também tem espaço para oferecer um ótimo trabalho, assim como James Spader, John Hawkes e Hal Holbrook. E Sally Field simplesmente não desperdiça um só momento: em um trabalho comovente, ela transita entre a ironia, a amargura e a tristeza imensa de uma primeira-dama que reconhece com certa abnegação o papel que lhe coube na vida escolhida pelo marido. Sua cena com Tommy Lee Jones é um ponto alto, sem dúvida.
Em termos técnicos, entre tantos trabalhos de qualidade, destaca-se o impressionante apelo barroco da direção de fotografia, com sua luminosidade teatral e carregada de dramaticidade, como se cada cena fosse uma tela imaginada por um gênio como Caravaggio.  
São duas horas e meia de uma bem estruturada narrativa, com forte apoio no poder dos diálogos e uma solene direção de Spielberg. Isso é impressionante, pois o mesmo autor da famigerada cena de Amistad, citada acima, dessa vez faz um esforço louvável para tirar qualquer apelo heróico à figura do protagonista. Como se ele estivesse simplesmente cumprindo o seu papel, de acordo com valores inegavelmente corretos. Isso oferece ao Lincoln retratado uma outra aura, a de um homem justo, correto, de uma nobreza interna cheia de falhas, e por isso mesmo, tão palpável.
Também os clichês de um drama de tribunal são combatidos: a cena da votação da 13a emenda é mostrada e, quando o clímax acontece, não vem com ele a previsível música emocionante. O diretor propõe outra coisa. Por isso, é interessante que o filme seja atacado por não ser "empolgante". Ele empolga sim, mas no seu apelo racional, na envolvente trama política  que ele se propõe a retratar com maturidade, sem infantilizar o público com discursos apelativos e cenas inflamadas.
Não sejamos ingênuos: é um filme que mostra um homem que mereceu destaque na história americana. É um filme americano, mas não um filme americanóide.  O presidente não salva o mundo, muito pelo contrário: ele cria mais um problema, que é o destino dos antigos escravos. Essa sim  uma questão que não se resolve com uma emenda constitucional. 



quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

DRAMA - PARTE 32

A RECONQUISTA
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O FRANCO ATIRADOR
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O HOMEM DE PALHA
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O MESTRE
CRÍTICA: Os filmes do diretor Paul Thomas Anderson mexem comigo. Não existe um filme dele  (Boggie Nights, Magnólia, Embriagado de Amor e Sangue Negro)que não me faça deixe completamente impressionado. Por isso, a expectativa para O Mestre era muito alta.
A trama acompanha Freddie Quill (Joaquin Phoenix, de Johnny e June), um soldado completamente sem rumo nos EUA pós-Segunda Guerra Mundial. Traumatizado, perturbado e sem perspectiva de emprego, sua vida dá uma virada quando ele conhece Lancaster Dood (Philip Seymor Hoffman, de Capote). Dood é líder de um culto que prega suas crenças sobre seres interplanetários, viagens de consciência através do tempo e outras coisas. A relação que surge entre os dois é de fascínio, dependência e respeito.
Quando o filme foi anunciado, sabia-se que Thomas Anderson iria investigar as origens da Cientologia (religião que tem muita força em Hollywood e possui em Tom Cruise seu maior propagandista). Mas o filme não fica nisso, aprofundando-se mais nas nuances da criação de um culto.
O maior trunfo do filme é, sem dúvida, a dupla de protagonistas.
Phoenix está literalmente deformado. Sua composição traz a tona toda a bagunça que é o interior de Quill, um jovem que não sabe o que fazer e acaba deixando-se levar pelo carisma de Dood sem questionamentos.
Hoffman é uma bomba-relógio. Seu Dood é simpático, carismático, mas sempre podemos perceber que ele, na verdade, está prestes a explodir. E quando isso acontece temos alguns dos melhores momentos do filme.
As cenas com os dois são espetaculares de acompanhar. Sejam os estranhos testes aos quais Quill é submetido, ou conversas que aparentam ser prosaicas. Faíscas saltam em cada um destes confrontos.
Infelizmente o filme todo não mantém essa energia. Em determinado ponto percebemos que, efetivamente, não tem muita coisa acontecendo na história. E que os personagens, apesar dos intérpretes, não parecem ir para lugar nenhum. E o final só corrobora isso.
É uma pena. Maravilhosamente dirigido e fotografado (alguns momentos são imensamente poéticos e chocantes), o filme acaba sendo desinteressante.
Até a sempre ótima Amy Adams (Dúvida) aparece sem grande destaque.
Vale a pena pelo espetacular duelo de atores.
E vindo de Paul Thomas Anderson, é realmente muito pouco.

domingo, 20 de janeiro de 2013

DRAMA - PARTE 31

COCOON
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O ESCAFANDRO E A BORBOLETA
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AMOR
CRÍTICA: É raro nos dias de hoje um filme que realmente incomoda. E incomoda porque esfrega na nossa cara nossos pensamentos mais negros e profundos. Os filmes do diretor Michael Haneke (A Fita Branca, Caché) tem essa habilidade. E Amor faz isso com uma crueldade impressionante.
Na trama, o casal de velhinhos Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant) vive uma vida feliz, entre cafés da manhã, passeios e idas a concertos. São cultos, inteligentes e economicamente estáveis. Tudo muda, porém, quando ela tem um derrame e passa a depender dos cuidados do marido. Ela recusa-se a ir para uma instituição médica. Ele respeita seu desejo. A degeneração gradativa da esposa vai transformar o antes animado apartamento em um mausoléu.
O filme passa-se quase que totalmente no imóvel, e é extremamente opressivo acompanhar sua transformação através da chegada de enfermeiros e equipamentos médicos.
A passagem de qualquer pessoa pelo local, seja o síndico do prédio ou a filha do casal (Isabelle Huppert, de A Professora de Piano) serve apenas para que o casal precise lidar com aqueles terríveis olhares de piedade e sejam sempre lembrados da própria desgraça.
O casal de protagonistas está brilhante, entregando performances que assustam pela crueza.
Haneke não poupa o espectador, e toma todo o tempo necessário para que possamos assimilar a degradação física de Anne e a degradação emocional de Georges. Longas sequências silenciosas onde apenas observamos Anne tentando abrir um livro ou Georges tentando dar-lhe um pouco de água causam repulsa e agonia. A tristeza é constante, a crueldade de realidade nunca é amenizada, e a perda da dignidade é constantemente enfatizada.
E quando chega o final, o diretor dá um tapa na nossa cara com uma conclusão que era esperada desde o início, mas que ainda assim choca.
Ao sair do cinema, os mais velhos poderão pensar se terão destino semelhante. Os mais jovens se colocarão no lugar da filha, pensando no que terão que, um dia, fazer com seus pais.
De acordo com Haneke, o cenário será sempre desolador.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

DRAMA - PARTE 30

ALÉM DA VIDA
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ENCHENTE - QUEM SALVARÁ NOSSOS FILHOS?
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O IMPOSSÍVEL
CRÍTICA: O Impossível devia se chamar O Desespero, tamanha a agonia pela qual faz o espectador passar.
A trama se passa no fim de 2004, quando um tsunami atingiu a Ásia, provocando grande destruição e matando milhares de pessoas. Uma família britânica é pega pela tragédia e se separa, tentando se reencontrar sem nunca perder a esperança. E tudo é baseado numa história real!
Parece a história de um telefilme feito para o Super-Cine, se não fossem alguns fatores essenciais.
O primeiro é o diretor Juan Antonio Bayona (do fantástico O Orfanato). Bayona mostra-se um mestre em manipular nossas emoções conduzindo-nos através da dura jornada de seus personagens com uma dose surpreendente de sadismo (quem viu O Orfanato sabe como ele pode ser muito sádico).
A reconstituição do tsunami é de um realismo assustador e impressionante.
Cada ferimento... cada objeto que causa um rasgo na pele... cada batida... Tudo é exposto de maneira crua e cruel. A ótima edição de som torna tudo ainda mais desesperador.
A trilha sonora também contribui para os picos de emoção, chegando as raias do exagero (mas sem ultrapassar esse limite).
O segundo fator é Naomi Watts (21 Gramas). Sua interpretação de mãe desesperada transpira sensibilidade, força e... dor... muita dor. É impossível (ups) não se comover com suas cenas, principalmente quando contracena com o filho mais velho (o ótimo Tom Holland).
Ewan McGregor (Trainspotting) também tem seus momentos, mas é a incrível presença de Watts que nos carrega pelo turbilhão aflitivo que é o filme.
Um filme realizado habilmente para fazer chorar, porém sem ser cafona, O Impossível é uma daquelas histórias sobre o triunfo do espírito humano que sempre pipocam no cinema.
O importante aqui e o estofo, que é da melhor qualidade.
Quanto a polêmica sobre o fato de que mostra-se uma tragédia asiática do ponto de vista ocidental, deixo minha opinião: O mundo inteiro foi atingido por aquele tsunami. É uma história, antes de tudo, de impacto humano.



terça-feira, 1 de maio de 2012

DRAMA - PARTE 29

FREUD - ALÉM DA ALMA
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SPIDER - DESAFIE SUA MENTE
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MULHERES À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS
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UM MÉTODO PERIGOSO
CRÍTICA: Um diretor de cinema pode sofrer muito com as expectativas. Principalmente se ele é conhecido pro realizar trabalhos que, um após o outro, viram a cabeça da gente e geram muita discussão e admiração.
Porém, às vezes ele pode estar a fim de fazer outra coisa, e aí nós ficamos com uma cara de "Oi?". Tomemos o exemplo de A História Real. É um filme ótimo. Tem uma boa história, ótimo elenco e direção correta. De repente, alguém grita lá do fundo: "MAS É UM FILME DO DAVID LYNCH!" Linearidade? Um personagem adorável? Um história simples e bem-contada? Nada mais do que isso? Pois é...
E assim, todos ficam correndo como baratas tontas tentando entender o que aconteceu com David Lynch.
Pois Um Método Perigoso, novo filme de David Cronenberg (de A Mosca, Spider e Senhores do Crime), vai por um caminho parecido.
Na trama, Carl Jung (Michael Fassbender, de Shame) é ainda um jovem que utiliza os novos e polêmicos métodos de psicanálise propostos por Sigmund Freud (Viggo Mortensen, de Marcas da Violência) para tratar a jovem Sabina (Keira Knightley, de Orgulho e Preconceito). Jung e Freud acabam se tornando amigos e confidentes, mas a relação do primeiro com Sabina vai abalar a ambos tanto no nível pessoal quanto no intelecutal.
A direção de arte, como de praxe, é muito eficiente na reconstituição daquele período pré-primeira Guerra Mundial (o filme se passa entre 1910 e 1913). Aliás, é ótima a maneira como o roteiro insere, sutilmente, referências a toda a tragédia racial e ideológica que se aproximava da Europa. A relação entre todas as personagens já é guiada por aquele tipo de pensamento.
O elenco está ótimo. Fassbender e Mortensen compõe seus personagens de maneira elegante e concisa. As cenas onde os dois dialogam e debatem suas teorias são eletrizantes, gerando um verdadeiro interesse. Knightley exagera um pouco nas cenas de histeria, ficando um pouco aquém dos demais. Mas não é nada que comprometa.
É na hora de aprofundar a questão da sexualidade que o filme frustra um pouco. A relação de Jung com Sabina é mostrada de forma tímida. Ela, que se excita sentindo dor e humilhação, passa por tímidos momentos que envolvem algumas palmadas na bunda. Cronenberg já falou do assunto de maneira mais contundente em Spider e até mesmo em A Mosca. O diretor parece contaminado pelo "puritanismo" que dominava a época.
"Então por que fazer este filme?", você pode se perguntar, "se ele vai podar seus instintos"? Porque a história é incrível.
E aí voltamos ao tema da discussão inicial. Um Método Perigoso tem um excelente roteiro e é realmente muito interessante acompanhar todos as discussões e choques de discurso entre as personagens.
Na parte "prática", porém, Cronenberg mostrou-se contido, diferente de seus outros filmes. E se você está esperando violência, choque e perversão, prepare-se para ficar frustrado. 
Um Método Perigoso não é um filmaço mas, como A História Real, é um ótima história muito bem contada.

sexta-feira, 30 de março de 2012

DRAMA - PARTE 28

MINHA VIDA EM COR-DE-ROSA
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MENINOS NÃO CHORAM
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ELA É O CARA!
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TOMBOY
COMENTÁRIOS


Por Malcon Bauer: Muitos filmes já se propuseram a discutir a sexualidade na infância. Recentemente o brasileiro Do Começo ao Fim fracassou fragarosamente ao tratar a temática com tanta assepsia que o assunto virou um comercial de margarina. Porém, este não é o caso do magnífico Tomboy.
Na trama, a garota Laure (a revelação Zoé Héran, a criança mais andrógina que já vi) é uma garota de 10 anos que se apresenta como o menino Mikael aos amigos que faz no novo condomínio para o qual acaba de se mudar. E o que começa como uma brincadeira acaba tomando proporções muito mais sérias para a jovem e para todos ao seu redor.
A diretora Celine Scianma é muito feliz na maneira como aborda a temática dentro de seu filme.
Laure não foi criada num ambiente opressor, e seus pais não se importam que ela goste de se vestir ou agir como um menino. Um clichê a menos, graças aos céus.
A história encaminha-se de maneira natural, sem frescuras, sem excessos de dramaticidade ou vilões. Quando a verdade vem à tona e Laure precisa lidar com suas mentiras, a reação de todos os personagens é extremamente realista.
O elenco de crianças é impressionante. É sempre bom assistir crianças agindo como tal, e não posso deixar de mencionar a pequena Maloon Lévana (a irmã mais nova de Laure), uma verdadeira ladra de cenas em sua graça de candura. A cumplicidade entre as irmãs é deliciosa de acompanhar. Um triunfo da direção.
Tratando de um tema espinhosos com impressionante delicadeza e sem frescuras (o filme tem perfeitos 80 minutos), Tomboy é um filme realmente comovente.

Por Vicente Concílio: Tomboy é um filme delicadíssimo sobre um tema espinhoso e controverso: a construção do gênero pelas crianças. Ou melhor, é um filme que capta a crise que uma menina passa ao ter que lidar com o fato de que ela quer ser, se sente e gostaria de ser reconhecida como um menino.
Alternando momentos de leveza e prazer, evocados pelas crianças brincando, com a tensão da possível descoberta da farsa que Laure elabora para ser tratada como um menino entre seus novos amigos, o roteiro é surpreendente ao fugir de um óbvio tratamento melodramático. Pelo contrário, a trama oferece com autenticidade deliciosa as cenas das crianças apenas sendo crianças, e as coloca como protagonistas de um dilema muitas vezes explorado de forma rançosa e pouco sutil.
A direção, nesse sentido, é preciosa. Sua aparente ausência na verdade comprova um trabalho profundo no trato com os atores mirins, totalmente à vontade frente às câmeras, e na espantosa atuação da protagonista, um trabalho que não se pode cansar de elogiar. Tomboy é um filme que não teme enfrentar o tema que se propõe a exibir, e é honesto sobretudo ao assumir que a solução para a questão não cabe em 90 minutos.

quinta-feira, 22 de março de 2012

DRAMA - PARTE 27

O ÚLTIMO TANGO EM PARIS
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SHAME
COMENTÁRIOS


Por Malcon Bauer: Shame é um daqueles filmes que deixa a gente perturbado.
Na trama, Brandon (Michael Fassbender, de X-Men: Primeira Classe) é um viciado em sexo que tenta, de maneira controlada, levar uma vida normal em Nova York. Obcecado pelo controle, ele vê sua vida virar de cabeça para baixo quando sua irmã Sissy (Carey Mulligan, de Drive) chega para visitá-lo. Intempestiva e carente, ela torna a vida de Brandon imprevisível, levando-o a momentos de puro descontrole.
Shame é um filme sobre as necessidades e egoísmos de cada um. Brandon e Sissy buscam maneiras de lidar com sua extrema solidão de maneiras invariavelmente destrutivas.
Ela busca a atenção dele. Ele precisa ignorá-la. E assim eles se anulam e vão se destruindo. E acompanhar este processo é de uma tristeza infinita.
O diretor Steve McQueen consegue performances fantásticas de seus protagonistas. Fassbender, num trabalho impressionante, é perturbadoramente frio, enquanto Mulligan (curiosidade: o diretor não a queria no papel) transita entre a alegria e a depressão.
McQueen utiliza de muitos planos sequências em sua produção. Em alguns momentos, como a cena do restaurante, o resultado é fantástico, com um verdadeiro show dos atores envolvidos. Em outros, nem tanto. A cena da canção de Sissy esvazia-se de toda a sua melancolia após seus quatro minutos (sem cortes) de duração. E em outros, soa puro virtuosismo (a corrida de Brandon pelas ruas de Nova York). Porém, o recurso consegue, na maioria das vezes, aprofundar nosso visão sobre as personagens e perceber todas as nuances de seus olhares e intenções. É uma coisa linda de se ver.
Shame é um filme ousado, seja nas alardeadas cenas de nudez ou na maneira como trata suas personagens e a construção das cenas.
É um filme onde importa apenas o agora , onde o imediatismo egoísta de nossas necessidades mais íntimas sobrepõe qualquer convenção social. É algo com o qual todos nós podemos nos identificar.

Por Vicente Concílio: Shame é daqueles raros encontros em que um ator em estado de entrega total se confronta com uma ótima premissa e um diretor realmente interessado em investigar o obscuro, o desagradável e a ausência de orgulho naquilo que um vício incontrolável pode provocar. Ou seja, aquilo que parece absolutamente necessário para a sobrevivência do protagonista é aquilo que absolutamente lhe suga a própria essência. Shame é um filme doente. Toda a histeria causada pela exibiçao da nudez frontal do protagonista se apaga diante da forma patológica com que o sexo é abordado nesse filme, em coerência total com a depressão e a tristeza que toma conta do personagem de Michael Fassbender.
Aliás, Michael, ao lado de Ryan Gosling, figuram entre os grandes injustiçados nas premiaçoes deste ano. Assim como Ryan está soberbo em Drive e Tudo pelo Poder, Fassbender está iluminado aqui, em Shame, e em Um Método Perigoso. Para constar, neste último filme, seu persoagem, o psiquiatra Carl Gustv Jung, diz uma frase perturbadora: "As vezes, é preciso fazer algo terrível para continuar a se sentir vivo". Este é o território de Shame, sem moralismos. É um filmaço. Corajoso como toda obra-prima deve ser.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

DRAMA - PARTE 26

AS TORRES GÊMEAS
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MELHOR É IMPOSSÍVEL

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O CÓDICO DA VINCI
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TÃO FORTE E TÃO PERTO
COMENTÁRIO: O diretor Stephen Daldry está indo por um caminho muito perigoso. Brilhou com Billy Elliot, arrasou em As Horas, pesou a mão um pouco com O Leitor e chutou o balde do melô com este Tão Forte e Tão Perto.
Na trama, o jovem Oskar (Thomas Horn) perdeu seu pai (Tom Hanks, de Forrest Gump) no 11/09 e embarca numa busca que, acredita ele, foi armada por ele antes de morrer. Munido de uma chave e um sobrenome, o garoto vai enfrentar todos os seus medos, manias e ansiedades para encontrar o dono da chave e resolver o mistério que, acredita ele, irá conectá-lo novamente com a figura paterna ausente.
A premissa é boa, e dizem que o livro é excelente.
A aventura de Oskar por uma Nova Yorque ainda chocada pelos acontecimentos de 2001 é um prato cheio para a emoção genuína, principalmente quando você tem atores do calibre de Sandra Bullock (Um Sonho Possível), Viola Davis (Dúvida) e Max Von Sydow (O Exorcista) como coadjuvantes.
Porém, o verborrágico-maníaco-compulsivo Oskar só consegue nos afastar de qualquer emoção. O personagem transforma-se rapidamente numa mistura do Dr. House, Monk e Sheldon (da série The Big Bang Theory), o que torna insuportável ouvir a sua voz após 40 minutos de projeção. E como se o falatório não fosse suficiente, ele ainda por cima narra o filme.
Os poucos minutos onde Oskar cala a boca sao os melhores, com destaque para a delicada presença de Von Sydow como um personagem mudo.
É impossível não se irritar com a chatice do personagem.
E, por incrível que pareça, quem brilha é Sandra Bullock. No papel da mãe de Oskar, a atriz apresente um desempenho contido, sofrido e impressionante, mesmo tendo um punhado de cenas. Foram as únicas onde me emocionei de verdade.
Apelativo e sentimentalóide, Tão Forte e Tão Perto é garantia na futura programação de um Super-Cine qualquer.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

DRAMA - PARTE 25

GARRA DE CAMPEÕES
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UMA MENTE BRILHANTE
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O HOMEM QUE MUDOU O JOGO
COMENTÁRIO: O baseball é um esporte mais incompreensível que a física quântica para a maioria do povo brasileiro. Crescemos vendo filmes sobre crianças que jogam no quintal e pais que trocam arremessos com seus filhos num campinho qualquer. Mas nunca entendemos que diabos está acontecendo.
O Homem que Mudou o Jogo conta a história real de Billy Beane (Brad Pitt, de A Árvore da Vida), mánager de um pequeno time de baseball que resolve apostar numa nova maneira de escolher jogadores para seu time, utilizando uma complexa fórmula matemática. Para isso, conta com o auxílio do jovem analista Peter Brand (Jonah Hill, de Superbad). A decisão gera muita polêmica, principalmente com o treinador do time (Phillip Seymor Hoffman, de Capote, aqui sub-utilizado).
Ou seja, o filme dirigido por Bennett Miller (Capote) fala muito sobre baseball. MUITO MESMO.
Claro que acompanhamos o drama de Beane, que está com o emprego por um fio e ainda precisa lidar com a filha e a ex-mulher (uma trama bem mal explorada, na verdade).
Claro que adoramos o tímido e esquisito Brand tentando lidar com o mundo dos esportes.
Pitt e Hill tem uma química inegável e é ótimo vê-los em cena.
As cenas de negociação mostram Pitt em sua melhor forma, carismático e cheio de energia.
Os momentos de jogo até são emocionantes... mas não entendemos nada do que acontece em 70% do filme.
E isso nos afasta da história, que fez um compreensível sucesso nos EUA e concorre a seis Oscars (inclindo o roteiro de Steve Zailian e Aaron Sorkin, do premiado A Rede Social).
Não deve ganhar nenhum. E deve ser esquecido pelo público brasileiro logo após a cerimônia.